Malditos sejam os momentos de silêncio extensos, malditos sejam.  São cicatrizes recentes de uma ferida que ninguém ousa tocar, a dor ainda é presente, a aparência repugnante, mas talvez pensa-se que se ignoradas elas deixam de existir. Se existem estão agora cobertas com meticulosidade pelo tecido fino e sedoso do silêncio, bendito seja. Vê lá, um raio no horizonte, ele também brilha em silêncio mas aguenta pouco, daqui a pouco ele o quebra visto que é demais até para ele. Não falei? Já bradou. Oxalá fosse como tal, que pudesse gritar de uma vez depois de muito segurar, não, quanta besteira, já gritei demais, o silêncio é apenas consequência do barulho de outrora. Vou apenas aguentar um pouco mais, daqui a pouco chegamos em casa. Mais um carro passa a nossa frente, mais água bate no vidro ameaçando nos encharcar, ousadia supérflua da água, bem sei que ela não pode entrar aqui, a única coisa que entra é o som molhado de seu encontro; tolo som também, tenta brigar com algo que está além de sua força, não se iguala nem distantemente do magnânimo, o insuperável, invicto silêncio. Penso em ligar a rádio, já está ligada, para não tornar inútil a viagem da mão decido desliga-lo. Má decisão, a canção barulhenta do silêncio apenas intensificou, mas não posso voltar atrás, tornar a ligar o rádio seria uma tolice e me faria parecer ainda mais tonto. Deixa como está, daqui a pouco chegamos em casa, quanto que falta mesmo? Muito.

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Meus mais sinceros não-sentimentos a você.

Gosto de você,
Gosto de ter você comigo,
Mas não gosto.
Não sinto.
Sinto muito.

Gosto da companhia,
Gosto de conversar.
Compartilhar.

Não sinto,
Mas sinto.
Sinto muito.

Não sinto,
Gosto de quem sente.
Ah! A gente.

Não sente.

 

 

De escrever

Embora não sendo tão presente,
Grande tempo uniu a gente.
Muitas coisas a fazer,
Sem encontros, aprender.

Esperando nova chegada,
Pouco tempo um adeus embala
Para poucos amigos esquecer,
Fiel tempo a enlouquecer.

Agora na partida,
Espero à porta,
Destemida.

Posso não muito ficar,
Mas bastante hei de guardar,
Até a memória deixar de suportar.

Dans la vie

C’est un petit village.
Dans le village,
Il y a une grande rue.
Dans la rue,
Il y a une photo.
Sur la photo,
Il y a un petit garçon.
Avec le garçon,
Il y a un ballon…
C’est un petit village.
Dans le village,
Il y avait un petit garçon.
Mais aujourd’hui,
Il n’y a pas…

Adaptado do texto ”Poème”- des professeurs stagiaires du C.I.E.P. de Sèvres.

Capitu

Minha Capitu se foi.
Pequei pelo excesso,
Imaginei onde não tinha.
Nunca tive.

Minha Capitu nunca foi minha.
Talvez tenha sido,
Até certo tempo, mas pouco depois,
Livre voou.

Minha Capitu não tinha olhos de ressaca.
Mas eram olhos que me olhavam com ternura.
Belos olhos,
Aqueles olhos,
Tão belos, porquê eram dela.

Minha Capitu beijava-me com desejo.
Dizia ser minha,
Agora diz isso a outro.
Minha Capitu jamais será de alguém.

Minha Capitu eu inventei.
Minha Capitu de verdade não enxerguei.
Hoje vejo de longe,
Minha Capitu feliz.
Não mais tão minha.
Mas ainda Capitu.